Redes
sociais ajudam na reconstrução da identidade racial
As
articulações e os debates suscitados nas redes sociais permitem que
seus membros construam e reconstruam suas identidades raciais. Na
dissertaçãoNegritude
em rede: discursos de identidade, conhecimento e militância – um
estudo de caso da comunidade Negros do Orkut,
a pesquisadora Melissa Maria de Freitas Andrade realizou uma análise
de uma comunidade de temática racial negra. O estudo foi feito na
Faculdade de Educação (FE) da USP entre 2009 e 2012, sob orientação
da professora Paula Perin Vicentini
Pesquisadora
analisou o discurso de dois tópicos da comunidade "Negros do
Orkut"
A
comunidade Negros,
segundo a pesquisadora, é uma das muitas com temática racial do
Orkut. “O estudo abrangeu a tabulação dos temas discutidos pelos
membros, por meio do acompanhamento dos fóruns”, diz Melissa, que
constatou a predominância de tópicos sobre identidade e sobre
política.
Disposta
a compreender como se davam os discursos de identidade, a
pesquisadora elegeu os tópicos “Negro, moreno escuro e claro” e
“Sou mulato filho de pais negros e brancos” porque discutiam
autodeclaração racial. As ações afirmativas se mantiveram sempre
como o tema mais discutido nesta comunidade, o que indica a grande
comoção provocada por temas relacionados ao debate racial.
Autodeclaração
Melissa, que é formada em Letras, também pretendia mostrar que a fala do homem comum sobre raça é muito presente no cotidiano, e não restrita ao meio acadêmico. Na observação dos testemunhos, a pesquisadora buscou relatos ou queixas sobre preconceito e agressões sofridos e, principalmente, qual discurso de raça os interlocutores praticavam. “Tais discussões”, ela diz, “ajudavam os membros a afirmarem-se como negros, pois a reconstrução identitária de interlocutores que vivenciaram e vivem experiências similares os ajuda a romper os padrões negativos introjetados”.
Entre
os pontos observados, Melissa percebeu a alusão constante a símbolos
relacionados à negritude, como penteados, roupas e adoção de
ídolos ligados à luta negra. Ainda, há intenso debate a respeito
da adoção e pertinência de conceitos como mulato, moreno escuro,
moreno claro, pois, conforme diz Melissa em sua dissertação, “A
miscigenação torna a autoidentificação menos precisa”.
Três
membros da Negros foram
entrevistados: uma professora; um advogado, jornalista e militante de
ONGs; e um estudioso das relações raciais. Todos se destacavam na
articulação dos debates nos fóruns. Nas entrevistas, Melissa
levantou discordâncias entre a efetividade da militância via
internet, pois, enquanto dois dos entrevistados acreditavam que a
internet ampliou o alcance do debate, o outro achava que ela
proporciona uma militância insuficiente. No entanto, todos
concordaram que a participação na rede ajudava as pessoas que
procuravam estudar e debater o tema a reconhecerem sua identidade
negra e a importância da autoafirmação da negritude no combate à
discriminação.
Aproximação
Segundo
Melissa, as redes sociais não foram criadas com intuito educacional,
porém já fazem parte do conceito de “sociedade pedagógica”,
“no qual o jogo educacional não tem hora nem lugar de ocorrer”.
Com
o uso das redes, é possível aproximar pessoas afastadas não só
geograficamente, mas também por outras implicações, como diferente
faixa etária. Há possibilidade de intensa troca de links e
materiais, e é grande o interesse demonstrado pelos participantes em
ampliar os estudos e debates relativos à identidade negra.
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